cena para um figurino2
05/02/2010
idealização e figurino: Desirée Bastos | atuação: Suzana Nascimento
PEQUENAgrandecia. de teatrocoisa
Sem divagações ou construções prévias. Abismo; aquele em que a gente se joga para só depois decidir muito rapidamente como cair, chegar ao chão. Foi este o único conceito que norteou a experiência: jogar-se.
Meu primeiro encontro com o figurino aconteceu uma hora antes de os espectadores chegarem. Deixei qualquer conhecimento teatral do lado de fora da cloaca daquele “bicho” pendurado no meio da sala. Apenas invadi aquela estranha intimidade para explorar suas passagens, seus buracos e tubos, sua malemolência, suas permissões. Meu intento era somente aquele de brincar com os túneis e limites que a roupa – roupa? – me oferecia. O que seria aquilo? Também não me ocupei em responder a essa pergunta. Sem questões, apenas ações.
O corpo físico – meu, daquele ser e um terceiro, decorrente da junção entre nós dois – conduziu o experimento. Algo de muito intuitivo, instintivo, dominou o acontecimento, chegando a instantes de aproximações claras com o animalesco, talvez também pela supressão da fala.
Cansaço; calor; suor; decisões físicas; exaustão – uma série de imagens, sons, associações, tensões e tentativas perpassaram o lugar do estranho, do objeto não identificado, mas gerador de expressões pujantes, presentes; sem questões para o momento.
(mais fotos no flickr)
cena para um figurino1
28/01/2010

suas vestimentas foram feitas dos materiais que cruzaram seus caminhos, são intensidades que lhes atravessaram
idealização e figurino: Desirée Bastos | atuação: Suzana Nascimento PEQUENAgrandecia. de teatrocoisa
Lembro-me do momento em que me sentei em frente a ele em minha sala para um encontro mais concentrado, após a euforia do contato inicial, quando experimentei-o pela primeira vez. Ficamos ali, parados, um em frente ao outro, silenciosamente. Observei-o sem pretensões de criar qualquer coisa que lembrasse uma cena. Apenas deixei que sua presença me afetasse, me remetesse naturalmente a lugares que poderiam sugerir pistas para o início do trabalho. Muitas ramificações surgiram desse momento, apenas por essa troca silenciosa. Dúvida. Por onde seguir? Permiti a mim mesma continuar a experiência sem ter que tomar decisões racionais imediatas.
Após esse momento, decidi estreitar o contato. Comecei a manipular seus elementos, experimentar diversas formas de evolução de cada pequeno objeto, admitir o estranhamento causado pela dureza da cápsula/tronco que limitava meus movimentos. Assumi que o simples deslocamento daqueles objetos de suas funções originais já criavam uma outra camada de apreensão de significados.
Encontrei ainda outros planos quando comecei a brincar de usar os objetos de novas maneiras, como quando tomei o disparador da máquina fotográfica e comecei a “fumá-lo” como se fosse o bico de um narguile – pela simples associação formal. Decidi adotar esses dois caminhos concomitantemente: aquele da interpretação do objeto com seu significado original – apenas deslocado para uma outra trama de sentidos – e este, em que a pura forma do objeto remete a outros, gerando novos significados. A partir daí, as possibilidades se multiplicaram vertiginosamente. Abismo. Aquela pergunta “por onde seguir?” foi elevada a uma altíssima potência. Anotei todas as imagens e os jogos que surgiam de minhas experimentações e fui arquivando-os, dia após dia, acumulando memórias do processo.
Memória. Essa tornou-se a palavra-chave que norteou a criação ou, para além disso, tornou-se o seu tema. Todas as imagens que surgiam, pela simples observação do figurino ou pelas relações criadas com ele a partir da ação, de uma forma ou outra, atrelavam-se a algum pedaço de memória. Isso porque o objeto em si – em minha acepção uma espécie de assemblage memorial – oferecia a mim uma série de mecanismos disparadores de lembranças, como cordas de caixas de música brotando dos seios, máquina fotográfica situada no lugar do coração, abajur/arquivo de fotos giratório na cabeça - luz que alumia ou apaga imagens do passado, se não me falha a memória…
A convivência com a roupa durante dias gerou uma intimidade que já ultrapassara o momento do encontro estético, uma espécie de aprofundamento da relação que acendeu muitas lembranças, muitas histórias, como se cada pedaço de objeto abrisse uma porta para infinitas narrativas.
É possível inventar memórias? É possível editá-las, como fazemos com as máquinas, quando deletamos o que não serve? O que não serve? Até que ponto podemos contar a história de uma pessoa a partir de seus objetos?
Mesclei memórias bem recentes e dolorosas à ficção construída no processo, num fluxo de penetrações mútuas que geravam um terceiro elemento, já sem limites aparentes entre invenção e ocorrência; um misto de significantes e significados, submetidos à luz oscilante de um velho abajur amassado.




